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quinta-feira, 28 de julho de 2011

E se

Parc Floral
Foto de Carla Catalão




"E se não fossem as horas
aquelas de quando tudo,
de quando nada,
de quando todas as coisas
envoltas nas palavras que nem deviam
e nas que faltaram para que tudo,
para que nada além,
para que muito mais fossem
outros os sentimentos
e outros e outros os caminhos
que não os que depois,
os que nunca,
jamais o entorpecer
das horas seguintes embriagadas
e sustentadas apenas por um fio, um fio,
um fio que se o vento atravessar
as fronteiras nada mais,
nada mais, apenas o fio sem o elo mesmo
que qualquer o elo
a sustentar a fragilidade nada além,
quase imperceptível de tão nada.

E se
E se fossem apenas a utopia das horas
que até em segundos transitam
entre o tempo imaginário
e o tempo muito mais que o imaginário,
o que é,
e no relógio os ponteiros se encontrando
e pouco a pouco longe,
distante, e novamente,
outra vez muito mais que apenas as palavras,
mas a pausa embrutecida
enquanto as interrogações se enfileiram
e no rosto e nos olhos e nas pálpebras
e onde mais a certeza de quando,
a incerteza de quando,
e se, e se, outra pausa, outra pausa, e se.
E se dentro das palavras caladas
e nas outras palavras o contemplar
do que não era,e do que era,
e do que seria e do que não seria,
e se dentro das horas a inexistência
e apenas imagens opacas
e todas outonais se confundindo
nas estações não apenas do tempo,
não apenas,
se."


Incomodidade





"Mente é casa que não tem paredes,
mas nos acostumamos a viver como se tivesse.

E, não é raro, passamos temporadas no cômodo mais apertado."

(Ana Jácomo)


sábado, 23 de julho de 2011

Mãos que se dão !!!


"Tantas, são as mãos
que damos sem questionar quem as agarra,
quem as afaga,
quem as segura para não mais largar....

Tantos, são os corações
que nos tocam a alma e nos aquecem o Espírito,
que nos fazem mergulhar nesse oceano de Ouro,
de Estrelas que brilham só por Amor à Luz Maior.

Tantas são ainda as lágrimas
de comoção e emoção
que Almas Puras se encontram
para se doarem à Luz !

Tanto é o Amor que trazemos
nos nossos corações !

Tantos são os corações que por Amor
simplesmente dão as mãos !"


(Eugénia De Almeida)

sábado, 18 de setembro de 2010

EN/TON/TECIDA



Linda poesia da amiga Helena Figueiredo
colorindo ainda mais o Aquarela Carioca.


"Invólucros fechados são meus olhos,
receio que desmaiem,
em tons aguados,
aguarela,
numa tela pendurada no museu,
e quando tu passares,
e me mirares,
rios de lágrimas lavem o pó,
que o tempo poisou,
e se solte o nome,
em baixo assinado,
do pássaro alado,
.......... que nunca voou."

(Helena Figueiredo)


sexta-feira, 17 de setembro de 2010

O Tempo


Tanto tempo distante do Aquarela Carioca...tantas mudanças acontecendo na minha vida...encontros inesperados...decepções...surpresas...enfim, assim é a vida !!!
E pra festejar essa vida maravilhosa que DEUS me deu, nada melhor que retornar ao Blog com a poesia de Mário Quintana !
Estou de volta :-)

"A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são seis horas !
Quando se vê, já é sexta-feira !
Quando se vê, já é natal...
Quando se vê, já terminou o ano...
Quando se vê perdemos o amor da nossa vida.
Quando se vê passaram 50 anos !
Agora é tarde demais para ser reprovado...
Se me fosse dado um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio.
Seguiria sempre em frente e iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas...
Seguraria o amor que está a minha frente e diria que eu o amo...
E tem mais : não deixe de fazer algo de que gosta devido à falta de tempo.
Não deixe de ter pessoas ao seu lado por puro medo de ser feliz.
A única falta que terá será a desse tempo que, infelizmente, nunca mais voltará."
(Mário Quintana)

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Meditação

Minha mão, o fruto e a árvore
Bois de Boulogne

Foto de Carla Catalão


"Quem acreditou
No amor, no sorriso, na flor
Ent
ão sonhou, sonhou...
E perdeu a paz
O amor, o sorriso e a flor
Se transformam depressa demais

Quem, no coração
Abrigou a tristeza de ver tudo isto se perder
E, na solid
ão
Procurou um caminho e seguiu,
Já descrente de um dia feliz

Quem chorou, chorou
E tanto que seu pranto já secou
Quem depois voltou
Ao amor, ao sorriso e à flor
Então tudo encontrou
E a própria dor
Revelou o caminho do amor
E a tristeza acabou"


(Tom Jobim e Newton Mendonça)


O Gato

Bill na minha mala
Foto de Carla Catalão


"Com um lindo salto
Lesto e seguro
O gato passa
Do chão ao muro
Logo mudando

De opinião

Passa de novo

Do muro ao chão
E pega corre
Bem de mansinho
Atrás de um pobre

De um passarinho

Súbito, pára
Como assombrado

Depois dispara
Pula de lado
E quando tudo
Se lhe fatiga

Toma o seu b
Pela barriga."

(Vin
ícius de Moraes)
anho
Passando a língua


Este poema é uma homenagem
ao meu gatinho Bill
falecido no domingo dia 13 de junho

Como disse minha amiga Miti :
- "Bill agora anda a correr entre as estrelas !!!"

Saudades meu Bill !!!!!!!!

O anjo de pernas tortas


"A um passe de Didi, Garrincha avança
Colado o couro aos pés, o olhar atento
Dribla um, dois, depois descansa
Como a medir o lance do momento.

Vem-lhe o pressentimento; ele se lança
Mais rápido que o próprio pensamento
Dribla mais um, mais dois; a bola trança
Feliz, entre seus pés - um pé-de-vento!

Num só transporte a multidão contrita
Em ato de morte se levanta e grita
Seu uníssono canto de esperança.

Garrincha, o anjo, escuta e atende: - Gooooool!
É pura imagem: um G que chuta um O
Dentro da meta, um L. É pura dança!"

(Vinícius de Moraes)


quinta-feira, 3 de junho de 2010

Pequena folha

Bois de Boulogne
Foto de Carla Catalão


''Tu eras também uma pequena folha

que tremia no meu peito.
O vento da vida pôs-te ali.
A princípio não te vi: não soube
que ias comigo,
até que as tuas raízes
atravessaram o meu peito,
se uniram aos fios do meu sangue,
falaram pela minha boca,
floresceram comigo.''

(Pablo Neruda)

O teu riso

No jardim do castelo de Versailles
Foto de Djordje Stanojevic


Tira-me o pão, se quiseres,
tira-me o ar, mas não
me tires o teu riso.

Não me tires a rosa,
a lança que desfolhas,
a água que de súbito
brota da tua alegria,
a repentina onda
de prata que em ti nasce.

A minha luta é dura e regresso
com os olhos cansados
às vezes por ver
que a terra não muda,
mas ao entrar teu riso
sobe ao céu a procurar-me
e abre-me todas
as portas da vida.

Meu amor, nos momentos
mais escuros solta
o teu riso e se de súbito
vires que o meu sangue mancha
as pedras da rua,
ri, porque o teu riso
será para as minhas mãos
como uma espada fresca.

À beira do mar, no outono,
teu riso deve erguer
sua cascata de espuma,
e na primavera, amor,
quero teu riso como
a flor que esperava,
a flor azul, a rosa
da minha pátria sonora.

Ri-te da noite,
do dia, da lua,
ri-te das ruas
tortas da ilha,
ri-te deste grosseiro
rapaz que te ama,
mas quando abro
os olhos e os fecho,
quando meus passos vão,
quando voltam meus passos,
nega-me o pão, o ar,
a luz, a primavera,
mas nunca o teu riso,
porque então morreria.

(Pablo Neruda)

quinta-feira, 18 de março de 2010

O Pássaro Cativo


Armas, num galho de árvore, o alçapão;
E, em breve, uma avezinha descuidada,
Batendo as asas cai na escravidão.

Dás-lhe então, por esplêndida morada,
A gaiola dourada;
Dás-lhe alpiste, e água fresca, e ovos, e tudo:
Porque é que, tendo tudo, há de ficar
O passarinho mudo,
Arrepiado e triste, sem cantar?

É que, crença, os pássaros não falam.
Só gorjeando a sua dor exalam,
Sem que os homens os possam entender;
Se os pássaros falassem,
Talvez os teus ouvidos escutassem
Este cativo pássaro dizer:

“Não quero o teu alpiste!
Gosto mais do alimento que procuro
Na mata livre em que a voar me viste;
Tenho água fresca num recanto escuro
Da selva em que nasci;
Da mata entre os verdores,
Tenho frutos e flores,
Sem precisar de ti!
Não quero a tua esplêndida gaiola!
Pois nenhuma riqueza me consola
De haver perdido aquilo que perdi ...
Prefiro o ninho humilde, construído
De folhas secas, plácido, e escondido
Entre os galhos das árvores amigas ...
Solta-me ao vento e ao sol!
Com que direito à escravidão me obrigas?
Quero saudar as pompas do arrebol!
Quero, ao cair da tarde,
Entoar minhas tristíssimas cantigas!
Por que me prendes? Solta-me covarde!
Deus me deu por gaiola a imensidade:
Não me roubes a minha liberdade ...
Quero voar! voar! ... “

Estas cousas o pássaro diria,
Se pudesse falar.
E a tua alma, criança, tremeria,
Vendo tanta aflição:
E a tua mão tremendo, lhe abriria
A porta da prisão...


(Olavo Bilac, do livro ''Poesias Infantis'')

terça-feira, 9 de março de 2010

Amar é ter um pássaro pousado no dedo...

Mésange Bleue no Bois de Boulogne, Paris
Foto de Carla Catalão


''Amar é ter um pássaro pousado no dedo.
Quem tem um pássaro pousado no dedo sabe que,
a qualquer momento, ele pode voar''

(Rubem Alves)


quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Assim eu vejo a vida


A vida tem duas faces :
Positiva e negativa
O passado foi duro
mas deixou o seu legado
Saber viver é a grande sabedoria
Que eu possa dignificar
Minha condição de mulher,
Aceitar suas limitações
E me fazer pedra de segurança
dos valores que vão desmoronando.
Nasci em tempos rudes
Aceitei contradições
lutas e pedras
como lições de vida
e delas me sirvo
Aprendi a viver.

(Cora Coralina)


domingo, 31 de janeiro de 2010

Nova habitante


eu continuo não sabendo as respostas
mas tem uma paz que adentrou meu coração
e se aconchegou no cantinho do meu peito
ela quieta minhas dúvidas
e nina meus medos para que eu adormeça

eu não sei por quanto tempo ela morará aqui
mas eu tenho bordado meus lábios de sorrisos
e meus olhos brilham avistando a luz do sol

eu ando vendo as ruas da minha cidade como cenas de filme
e eu sei que é ela quem faz isso
porque continua tudo igual do lado de fora
mas as folhas secas do inverno frio têm me parecido tão mais belas
que eu nem senti falta das flores nas calçadas

eu tenho viajado tanto para dentro de mim
que encontrá-la, assim, morando aqui
foi um tropeço numa rosa solitária
sem saber, enfim, se ela esperava por mim.

(Juliana Pestana)


domingo, 17 de janeiro de 2010

Esse mistério

Flor na Promenade Plantée, Paris, França.
Foto de Carla Catalão



''Estive pensando nesse mistério
que faz com que a vida da gente
se encante tanto por outra vida.
E sinta vontade de escrever poemas.
Garimpar estrelas.
Deixar florir pelo corpo
os sorrisos que nascem no coração.
Nesse mistério que nos faz olhar
a mesma imagem inúmeras vezes,
sem cansaço,
mesmo nos instantes
em que é feita de papel ou de memória.
Que nos faz respirar feliz que nem folha orvalhada.
Querer caber, com frequência,
no mesmo metro quadrado onde a tal vida está.
Cantarolar pela rua aquela canção
que a gente não tinha a mínima ideia de que lembrava.
Estive pensando nesse mistério
que faz com que a vida da gente
encontre essa vida na multidão planetária de bilhões de outras.
E sem saber que ela existia,
perceba ao encontrá-la
que sentia saudade dela antes de conhecê-la.
Estive pensando nesse mistério
que faz com que aquela vida
que acaba de encontrar a nossa
nos deixe com a impressão
de estar no nosso caminho desde sempre,
como se fosse um sol que esteve o tempo todo ali
e a gente somente não o ouvia cantar.
Nesse mistério que nos faz trocar buquês
dos olhares mais cuidadosos.
Que nos faz querer cultivar jardins, lado a lado.
Nesse mistério que faz com que a nossa vida
queira um bem tão grande à outra vida,
que vai ver que isso já é uma prece
e a gente nem desconfia.
Estive pensando nesse mistério lindo
que você é para alguém e alguém é para você
ou que ainda serão um para o outro.
Nessa oportunidade preciosa dos encontros
que nos fazem crescer no amor
também com o tempero bom da ludicidade.
Nesse clima de passeio noturno
em pracinha de cidade pequena.
Nessa paz que convida o coração
pra se recostar e repousar cansaços.
Nesse lume capaz de clarear
um quarteirão inteirinho da alma.
Nesse abraço com braços
que começam dentro da gente.
Nessa vontade de deixar o mundo todo pra depois
só para saborear cada milímetro
do momento embrulhado pra presente.
Estive pensando nesse mistério
que não consigo desvendar.
Nem tento.''

(Ana Jácomo)


sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Transcendência


Eu invejo os passarinhos,

todos os passarinhos que se vão para o sul.
Eles não levam bagagem, amores, provisões,

fantasias, saudades.

Apenas cismam e se vão.

Eu, no inverno álgido, fico por aqui mesmo,

jamais pensei em ir para o sul.

Quanta coisa teria que levar!

Os passarinhos, esses, não são materialistas,

deixam tudo o que conquistaram e se esvaem.

Aprenderam o desapego das coisas.

No máximo, carregam algumas plumas felizes

e nos deixam a incrível lição do desejo.

(Poesia de Angel Cabeza)

http://www.angelcabezza.blogspot.com/



quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Poema do meu amigo Ismar Andrade


Tudo se faz sombra


"Deixei na última gaveta da cômoda
a recordação prometida
para quando este dia chegasse.

Deixei ali
entre os papéis de sentimentos descritos
como nódoas grudadas para sempre

e nódoas fragilizadas
sensíveis
que se apagam
com o tempo.

E sobre o travesseiro
coberto pela fronha ainda alva de ontem

Deixei o meu abraço quase apertado
quase melancólico
quase uma parte de mim.

E deixei o meu abandono
que não era ao lado do teu abandono que não era

E as marcas da minha saudade
misturadas nas marcas da tua saudade deixei

Um pouco de mim dentro do teu quarto
Dentro do teu cheiro
E dentro das tuas recordações
que remoem as horas do passado e o presente
que nunca cessa com as fotografias
que se movem apenas na memória.


Deixei.
E trouxe comigo um pouco do que lhe pertence:
Nada mais.

Silenciosamente parti.
A chave em minhas mãos
Propositalmente perdida
ao andar pelas margens do rio de águas
que segredam palavras de laços rompidos.

A imensa ponte atravessa o rio
e a sua sombra se move sobre as águas.

Tudo se faz sombra
E eu ali,
Dizendo mais uma vez:
Nunca mais!"


(I. Andrade - Lisboa, 08/12/09)
Blog O Silêncio e a Bagagem


segunda-feira, 23 de novembro de 2009

É preciso não esquecer nada

Desenho de Adilson Farias


''É preciso não esquecer nada :
nem a torneira aberta nem o fogo aceso,
nem o sorriso para os infelizes
nem a oração de cada instante.

É preciso não esquecer de ver a nova borboleta
nem o céu de sempre.

O que é preciso é esquecer o nosso rosto,
o nosso nome, o som da nossa voz, o ritmo do nosso pulso.

O que é preciso esquecer é o dia carregado de atos,
a idéia de recompensa e de glória.

O que é preciso é ser como se já não fôssemos,
vigiados pelos próprios olhos
severos conosco, pois o resto não nos pertence.''


(Cec
ília Meireles)


segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Poema do Amor Perfeito

Foto de Sylvain Teston



''Naquela nuvem, naquela,
mando-te meu pensamento :
que Deus se ocupe do vento.

Os sonhos foram sonhados,
e o padecimento aceito.
E onde estás, Amor-Perfeito ?

Imensos jardins da insônia,
de um olhar de despedida
deram flor por toda a vida.

Ai de mim que sobrevivo
sem o coração no peito.
E onde estás, Amor-Perfeito ?

Longe, longe, atrás do oceano
que nos meus olhos se aleita,
entre pálpebras de areia...

Longe, longe... Deus te guarde
sobre o seu lado direito,
como eu te guardava do outro,
noite e dia, Amor-Perfeito.''

(Cecília Meireles)

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Amizade/Amitié :-)



"Tenho amigos que não sabem o quanto são meus amigos.
Não percebem o amor que lhes devoto
e a absoluta necessidade que tenho deles.

A amizade é um sentimento mais nobre do que o amor,

eis que permite que o objeto dela se divida em outros afetos,
enquanto o amor tem intrínseco o ciúme,
que não admite a rivalidade.

E eu poderia suportar, embora não sem dor,

que tivessem morrido todos os meus amores,
mas enlouqueceria se morressem
todos os meus amigos !

Até mesmo aqueles que não percebem
o quanto são meus amigos

e o quanto minha vida depende de suas existências ...

A alguns deles não procuro, basta-me saber que eles existem.

Esta mera condição me encoraja a seguir em frente pela vida.
Mas, porque não os procuro com assiduidade,
não posso lhes dizer o quanto gosto deles.
Eles não iriam acreditar.

Muitos deles estão lendo esta crônica

e não sabem que estão incluídos
na sagrada relação de meus amigos.

Mas é delicioso que eu saiba e sinta que os adoro,
embora não declare e não os procure.

E às vezes, quando os procuro,

noto que eles não tem noção de
como me são necessários,
de como são indispensáveis ao meu
equilíbrio vital, porque eles fazem parte do mundo que eu,
tremulamente, construí e se tornaram alicerces
do meu encanto pela vida.

Se um deles morrer, eu ficarei torto para um lado.

Se todos eles morrerem, eu desabo !
Por isso é que, sem que eles saibam,
eu rezo pela vida deles.

E me envergonho, porque essa minha prece é,
em síntese,
dirigida ao meu bem estar.
Ela é, talvez, fruto do meu egoísmo.

Por vezes, mergulho em pensamentos sobre alguns deles.

Quando viajo e fico diante de lugares maravilhosos,
cai-me alguma lágrima por não estarem junto de mim,
compartilhando daquele prazer ...

Se alguma coisa me consome e me envelhece

é que a roda furiosa da vida
não me permite ter sempre ao meu lado,
morando comigo, andando comigo,

falando comigo, vivendo comigo, todos os meus amigos, e,
principalmente os que só desconfiam
ou talvez nunca vão saber que são meus amigos!

A gente não faz amigos, reconhece-os."

(Vinícius de Moraes)